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sábado, 28 de setembro de 2013

EMBEBEDAI-VOS

EMBEBEDAI-VOS


É preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos
E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: "É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedaivos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa."
 Chales Baudelaire

Em qualquer lugar fora do mundo!

Em qualquer lugar fora do mundo


Esta vida é um hospital onde cada doente está possuído pelo desejo de mudar de leito.Este gostaria de sofrer em frente a um aparelho de calefação, aquele outro crê que se curaria em frente à uma janela.

Parece-me que estarei sempre bem lá onde não estou, e essa questão de mudança é um assunto que discuto sem cessar com minha alma.

"Diga-me, minha alma, pobre alma resfriada, que pensarias de morar em Lisboa? Lá deve fazer calor e tu te regozijarias como um lagarto. Essa cidade fica à beira-mar, diz-se que foi construída com mármore e que o povo tem um tal ódio por vegetais que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem segundo teu gosto; uma paisagem com a luz e o mineral, e o líquido para refleti-los!"

Minha alma não responde.

"Posto que amas tanto o repouso com o espetáculo do movimento, queres vir habitar na Holanda, essa terra beatificante? Talvez se divertirás nesse lugar cujas imagens freqüentemente admiraste nos museus. Que pensarias tu de Rotterdam, tu que amas as florestas de mastros e de navios amarrados ao pé das casas?"

Minha alma permanece muda.

"Batávia sorriria, talvez mais para ti. Nós encontraríamos lá, então, o espírito da Europa casado com a beleza tropical."

Nenhuma palavra. Estaria morta a minha alma?

"Chegaste a este ponto de entorpecimento que não te alegras senão com teu próprio malSe é assim, fujamos, então, para os países que são as analogias da morte. Já sei o que devemos fazer, pobre alma! Nós faremos nossas malas para Tornéo. Iremos mais longe ainda, ao extremo fim do Báltico, ainda mais longe da vida, se é possível; nos instalaremos no pólo. Lá o sol não roça senão obliquamente a terra, e as lentes alternativas da luz e da noite suprimem a variedade e aumentam a monotonia, essa metade do nada. Lá nós poderemos tomar longos banhos de trevas, enquanto que para nos divertir as auroras boreais nos enviarão, de vez em quando, seus fachos róseos, como reflexos de fogos de artifício do inferno!"

Enfim minha alma explodiu e sabiamente gritou para mim:

"Não importa onde! Não importa onde! desde que seja fora desse mundo!"

 
 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

SONETO DE OUTONO

  Teus olhos perguntam claros cristal:
  "O que, meu estranho amante, em mim mais te excita?"
  -Por favor, cala-te! O meu coração que tudo irrita,
  Exceto a candura desse bem antigo animal,

  Não quer mostrar o seu segredo infernal,
  Balanço cuja mão ao sono profundo me incita,
  Nem sua lenda negra a fero e fogo escrita.
  Odeio a paixão e o espírito me faz mal!

  Vamos nos amar docemente. O amor na quarida,
  tenebroso, emboscado, estende o arco fatal.
  Eu conheço os troços do seu velho arsenal:

  Crime, horror e loucura! Ó pálida margarida!
  Não serás, por acaso, como eu um sol outonal?
  Ó minha branca, ó minha tão fria Margarida!


  Flores do Mal

  O amor segundo Charles Baudelaire

A MÚSICA

  A música com frequencia me arrasta feito o mar!
  Para a minha estrela pálida;
  E sob um teto de brumas ou céu de levitar,
  Solto a minha vela esquálida;

  Peito para frente a pulmões estufados
  Como qualquer vela,
  Escalo das ondas os dorsos amontoados
  Que a noite nivela;

  Sinto vibrar em mim toda a força das paixões
  De um navio suspenso;
  O bom vento, a tempestade e suas convulsões

  Sobre um abismo imenso
  Me embalam. Já na calmaria ela é o reflexo
  Do meu ser perplexo!



Flores do Mal

O amor segundo Charles Baudelaire