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terça-feira, 2 de junho de 2015

Ouvido no Escuro I de Samuel Beckett

Da última vez que você saiu havia neve no chão. Você agora deitado de costas no escuro está em pé naquela manhã na soleira tendo fechado a porta suavemente atrás de si. Você se encosta na porta com a cabeça baixa preparando-se para partir. Quando você abre os olhos seus pés desapareceram e as abas do sobretudo repousam na superfície da neve. A cena escura parece iluminada de baixo. Você se vê naquela última saída encostado na porta de olhos fechados esperando uma palavra sua para ir. Você? Para ter ido. Então a cena iluminada pela neve. Você está deitado no escuro de olhos fechados e se vê lá como descrito preparando-se para ir embora e para longe através da expansão de luz. Você ouve outra vez o clique da porta fechada suavemente e o silêncio antes que os passos possam começar. A seguir você está a caminho através do pasto branco festivo com cordeiros na primavera e salpicado de placentas vermelhas. Você toma o rumo que sempre toma que é uma linha reta para o vão ou ponto esgarçado na cerca viva que forma a margem ocidental. Até lá desde a sua entrada no pasto você normalmente necessita de mil e oitocentos a dois mil passos dependendo do seu humor e do estado do terreno.

Muitos muitos mais. A linha reta é tão conhecida de seus pés que se necessário eles conseguiriam manter-se nela você sem visão com erro na chegada de não mais que poucos passos para o norte ou sul. E na verdade sem qualquer necessidade desse tipo a não ser interna é o que eles normalmente fazem e não só aqui. Pois você avança se não de olhos fechados embora assim muitas vezes pelo menos com eles fixos no terreno momentâneo diante de seus pés. Isso é tudo da natureza que você não conta mais seus passos. Pela simples razão de que dão todo dia o mesmo número.
Média entra dia sai dia a mesma. O caminho sendo sempre o mesmo. Você mantém a contagem dos dias e a cada décima noite multiplica. E soma. A sombra de seu pai não está mais com você. Debandou há muito tempo. Você não ouve mais suas passadas. Sem ouvir sem ver você não há mais nenhum outro. Você não costumava parar nunca exceto para fazer seu cômputo. De modo a arrastar-se do zero de novo. Essa necessidade eliminada como vimos não há mais nenhuma teoricamente de parar. Salvo talvez por um momento no ponto mais distante. Para se recompor para retorno. E no entanto você não está mais cansado agora do que sempre esteve. Não por causa da idade. Você não está mais velho agora do que sempre foi. E no entanto você para como nunca antes. De modo que os mesmos cem metros que você costumava cobrir em questão de três metros  a quatro minutos podem levar agora algo em torno de quinze a vinte. O pé cai por conta própria a meio passo ou o próximo a subir prega-se no chão levando o corpo à imobilidade. Então um discurso mudo cujo essencial, eles podem continuar? ou melhor, Devem continuar? O estritamente essencial. Imobilizados quando finalmente como sempre até aqui eles continuam. você está deitado no escuro de olhos fechados e vê a cena. Como não pôde na época. O manto escuro do céu. A terra deslumbrante. Você imóvel no meio. As botinas afundadas até as bordas. As abas do sobretudo repousando na neve. Na velha cabeça baixa no velho chapéu redondo aflição muda. No meio do pasto em sua linha reta para o vão. Os pés precisos fixos. Você olha para trás como não poderia então e vê o rastro deles. Um grande desvio. Anti-horário. Quase como se de uma só vez o coração pesado demais. No fim pesado demais.

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